AS SETE LÁGRIMAS DE UM PRETO-VELHO

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W.W. Matta e Silva diz:

     
Nestas páginas estão gravadas as impressões vividas e sentidas por mim, diretamente, de um humilde e leal amigo do Astral (Pai Guiné), a quem rendo minha eterna gratidão, como seu veiculo mediúnico desde a infância...

     Desse Preto velho, colhi esse lamento e essa lição, sobre a natureza das humanas criaturas que “giram” nos Terreiros ou Tendas de Umbanda.

     Isto foi a muitos anos... naturalmente ele (pai Guiné) me proporcionou esse “passeio astral”, e ao falar assim numa demonstração direta, quis que eu visse a coisa como ela era e é... pois eu tinha ilusões e bastante ingenuidade ainda.

     Assim quero dedicar essas suas lágrimas,  aos meus irmãos de Umbanda, aparelhos sinceros, para que, mediando nelas e vibrando a doce paz desses “pretos- velhos”, possam haurir(solver) forças e compreensão e sobre tudo a indispensável experiência, para que sejam realmente, baluartes (local seguro) das verdades que eles tanto ensinam... Quando tem a oportunidade...

 

            Foi numa noite estranha, estranhas vibrações penetravam no meu ser mental e o faziam ansiado por algo, que pouco a pouco se fazia definir...

            Era um desconhecido, mas sentia-o, como se estivesse em comunhão c/ a minha alma, e externava a sensação de um silencioso pranto...

            Quem do mundo astral emocionava  assim um pobre “eu”, não o soube, até adormecer... e “sonhar”...

            Vi meu “duplo” transportar-se, atraído por cantigas que falavam de Aruanda, Estrela Guia Zamby, eram as vozes da SENHORA DA LUZ VELADA , dessa UMBANDA DE TODOS NÓS, que chamavam seus filhos de fé...

             

E fui visitando Cabanas e Tendas, onde multidões desfilavam... mas, surpreso ficava c/ aquela “visão” que em cada um eu “via”, invariavelmente, num canto, pitando o seu cachimbo, que um triste preto velho, chorava.


De seus olhos molhados, esquisitas lágrimas desciam-lhe pelas faces, não sei porque contei-as...foram sete. 

Na incontida vontade de saber, aproximei-me e o interroguei. Fala meu Preto Velho, diz ao teu filho por que externas assim tão visível dor? 
E ele, suavemente respondeu:

- Estás vendo esta multidão que entra e saí? As lágrimas contadas estão distribuídas a cada uma dela. 


- A primeira, eu dei a estes indiferentes que aqui vem em busca de distração, na curiosidade de ver, bisbilhotar,  para saírem ironizando aquilo que suas mentes ofuscadas não podem conceber... 


- A segunda, a esses eternos duvidosos que acreditam desacreditando, na expectativa de um milagre que os façam alcançar aquilo que seus próprios merecimentos negam. 


- A terceira, foi para esses que crêem, porém numa crença cega, escrava de interesse estreitos. São os que vivem eternamente tratando de “casos” nascentes uns após outros...

- A quarta, distribui aos maus, aqueles que somente procuram a Umbanda em busca de vingança, desejando sempre prejudicar a um dos seus semelhantes. Eles pensam que nós os Guias, somos veículos de suas malesas, paixões , e temos obrigação de fazer o que pedem... pobres almas, que das brumas (escuridão) ainda não saíram.

- A quinta, aos frios e calculista – não crêem, nem descrêem, sabem que existe uma força espiritual, e procuram beneficiar-se dela de qualquer forma, e não conhecem a palavra gratidão, negarão amanhã até que conheceram uma casa de Umbanda... Chegam suave, com risos, o elogio na flor dos lábios,são fáceis, muito fáceis, mas se olharem bem o seu semblante, verão escrito: "Creio na tua Umbanda, nos teus caboclos e no teu Zamby, mas somente se vencerem o meu caso ou me curarem disso ou daquilo." 


- A sexta, eu dei aos fúteis que vão de centro em centro, não acreditando em nada, buscam aconchegos e conchavos e seus olhos revelam um interesse diferente, sei bem o que eles buscam.


- A sétima, filho, nota como foi grande e como deslizou pesada: Foi a última lágrima, aquela que vive nos "olhos" de todos os Orixás. Fiz a doação dessas aos médiuns vaidosos, cheios de empáfia (orgulho, soberba), para que eles lavem suas máscaras, e todos posam vê-los como realmente são... “Cegos, guias de Cegos”, andam se exibindo c/ a Banda, tal qual mariposas em torno da luz; essa luz que eles não conseguem VER, porque só visam a exteriorização de seus próprios egos. Olhai-os bem, veja como suas fisionomias são turvas e desconfiadas; observe que quando falam “doutrinando”; suas vozes são ocas, dizem tudo de “cor e salteado”, numa linguagem sem calor, estão aferrados ao conforto da matéria e a gula do vil metal. Eles não tem convicção.

 

  Assim, filho meu, foi para esses todos, que vistes cair, uma a uma as sete lágrimas de Preto Velho! Então, com a minha alma em pranto, tornei a perguntar :

_ Não tem mais nada a dizer, pai Preto?

 

E daquela “forma velha”, vi um véu caindo e num clarão imenso, que chegava a ofuscar, ouvi mais uma vez...

“Mando a luz da minha transfiguração, para aqueles que esquecidos pensam que estão... ELES FORMAM A MAIOR DESSAS MULTIDÕES...”  São os humildes, os simples, estão na Umbanda pela Umbanda, na confiança pela razão...são seu filhos de fé. São também os “aparelhos”, trabalhadores, silenciosos, cujas ferramentas se chamam DOM e FÉ, e seus salários de cada noite são pagos quase sempre com uma só moeda, que traduz o seu valor em uma só palavra – a Ingratidão...

Mestre Yapacany

 

 


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